quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Saudades do verão


Eu, aqui, um tanto estupefato, sinto um cheiro. Cheiro de dezembro, precisamente. Pois é, já é dezembro. Cheiro e sentimento de algo que nasce aos poucos em terras paulistanas, com o sol tentando brigar com os impiedosos arranha-céus que teimam impedir que ele, tão poderoso, chegue às pessoas. Mas o cheiro que sinto aí pela rua, é cheiro de preparo – talvez para algo que não acontece mais na minha realidade, mas inegavelmente continua a existir em minha alma. É o verão que está próximo.
E quando o sol, escapando sutilmente do concreto dos edifícios, me faz cerrar os olhos chegando ao meu rosto, é inevitável: um único edifício que sempre me permitiu sol e verão se faz presente. É para ele que sempre eu me preparo tanto.
As férias escolares de dezembro não passavam da maneira que queríamos. O calendário era cobrado incisivamente a colaborar e fazer com que o tempo passasse o mais rápido possível. Isso porque, tão logo seria o momento de adentrar ao período mais extenso do ano: as férias no Jaguanum.
Aos menos íntimos devo fazer uma breve pausa para explicar que Jaguanum é o nome do edifício localizado no Guarujá, litoral paulista, aonde passei os grandes momentos da minha adolescência. Ao contrário dos habituais edifícios das cidades praianas - com poucos andares e os carros estacionados por todo o térreo - o nosso estava mais para parque de diversões: lá tinha piscina com cachoeira, sauna, salão de jogos, salão de festas, quadra e todos os cantos que crianças e adolescentes encontraram naquele espaço, afim de saciar todas as necessidades sociais e, quiçá, hormonais.
O cheiro que sinto também agrega pureza, esperança e descoberta. Algo acontecia e ia muito além das espinhas que surgiam nos rostos, dos pelos que brotavam nas pernas ou nos corpos que se faziam mais presentes. Desprovidos de calos da amarga experiência que muitas vezes é a vida adulta, aqueles quase jovens de doze, treze anos podiam tudo – nem que fosse dentro deles. Uns, certamente, acreditavam neste todo poder na arrogância compreensiva da puberdade, enquanto outros apenas olhavam o futuro como a possibilidade de tudo ainda ter chance de acontecer. Pois havia tempo.
Havia tempo, pois descobríamos que dias se estendiam em noite – depois de certo verão, lá naquele prédio, ninguém tinha hora, nem para dormir. Para nós, naquele momento, era de fato a conquista da liberdade. Havia tempo para fazer tudo que era possível, de se escaldar debaixo do sol, de brincar – num resquício de uma infância que há pouco havia se distanciado-, de descobrir tantos novos sentimentos nas surpresas de uma nova fase que estava se iniciando. Havia também muito tempo para amar intensamente, como se o fim de janeiro ou começo de fevereiro fosse quase o fim da vida. Cada um lidava de uma maneira com isso: alguns amores tinham um quê de eternidade; outros, a volatidade daqueles que ainda não têm compromisso qualquer e muito menos culpa. Afinal, era a vida – e o verão - que estava pela frente.
Havia o compromisso de uma união de vida inteira, quando a verdade absoluta da história era a resposta dada na recusa de um desafio. Mal sabíamos os tantos desafios impossíveis de se recusar que surgiriam quando os verões não pudessem ser mais saboreados daquela maneira. Quando as transformações que compartilhávamos se fizesse concluída e definiria, para muitos, rumos distintos. E assim se fez. Numa dor semelhante ao fim das férias – era como se o mundo acabasse e o tempo não fosse mais amigo.
Hoje, o pouco tempo parece permanecer. E, caro leitor, pouco importa se você conheceu este edifício do qual me refiro. Certamente, sabe bem dos sentimentos provenientes desta época do ano, em algum momento da sua vida, seja qual for o lugar. Mas este foi o meu. Permita-me esta singela crônica sem precedentes. É o cheiro de agora que anda me dando tantas saudades do verão.

0 comentários:

Postar um comentário