quarta-feira, 20 de julho de 2011

Mesa para dois

- Posso te fazer um pedido? - perguntou.

O amigo pareceu surpreso. Ainda assim, assentiu com a cabeça, um tanto curioso, autorizando o outro a prosseguir:

- Lógico... fala, cara...

Ele, então, tragou mais uma vez seu cigarro de palha e se aproximou para dividir um segredo que parecia mais do que íntimo:

- Quando eu morrer, conta para minha esposa, para meus irmãos, para meus pais...para quem for. Conta tudo o que está acontecendo aqui...

Era uma mesa de bar. Tudo o que estava acontecendo ali.

O rapaz que a partir daquele momento estava incumbido de tal missão, silenciou-se. Talvez estivesse absorvendo a importância daquele pedido. Porém, com uma certeza absoluta, singelamente solucionou a questão em um profético anúncio:

- Eles vão ler.

Com o olhar, o outro apenas consentiu ternamente diante da escolha feita para disseminar aquela história algum dia, quem sabe, lá no futuro. Levou seu cigarro novamente à boca, sentindo porém um sabor especial – sabor de quem sonha em inventar a vida. E agora, tomado de uma passageira tranqüilidade por saber que seu pedido seria, sim, realizado.

Naquele instante, o silêncio que atravessava aqueles dois não era distância. Pelo contrário: observavam-se, alinhando-se na proximidade inexplicável de quem um dia se reconheceu. Aos menos céticos, certificaria ainda que era possível ouvir as teclas de uma velha máquina de escrever sendo tocadas por alguém que trabalhava ansiosamente.

Em tudo o que estava acontecendo ali.

Ao redor daquela mesa de bar, a vida corria. Corria porque o tempo insistia em não parar, mesmo que juntos tentassem estendê-lo e domá-lo feito proeza de super-heróis. Heróis tão humanos, tão reais, que dividiam espaço com velhos homens que bebericavam sozinhos, mulheres que seduziam clientes, e garçons que contavam os segundos para fechar o expediente.

A única coisa que sabiam era que o prato principal daquela noite – como fora de tantas outras - era a imensidão de possibilidades que a vida do ser humano possui. Não apenas calcada na realidade absoluta dos fatos, mas mergulhada em ousadas percepções juvenis e abocanhada pelos sentimentos mais intensos – mesmo que eles cortassem o peito feito faca.

E cortavam.

Era um destes cortes que se rompia no olhar quieto do responsável pela profecia, diante do observar, ali frente a frente, de um espelho que possuía reflexo diferente por fora, mas que era tão semelhante em algum outro lugar, por ora desconhecido.

E nem precisaria, quiçá, diante da vida ou de alguém que pudesse assim questionar, encontrar tal lugar aonde se assemelham tantas coincidências para se explicar alguma coisa. Seria, certamente, no mesmo lugar em que se encontrariam os sonhos, o afeto, a cumplicidade. Bem aonde se alinham caminhos que se cruzam como os abraços fortes e apertados das chegadas e partidas – e que trazem a certeza de paz aonde quer que se esteja.

A vida corre, meu caro amigo – diziam-se um ao outro. Afinal, quem iria vê-los ali, sentados, naquela mesa para dois, no meio do mundo? E em qual mundo ( no de quem?), iriam ser encontrados? Quem gostaria, afinal, de saber tudo o que estava acontecendo ali?

Não importava. Ali, tudo se bastava. Eram os donos do mundo, e continuariam sendo – como meninos, como jovens, como os homens que ainda se tornarão. Quando o dia chegar, eles vão saber tudo o que estava acontecendo ali.

- Cara, posso te fazer uma pergunta? – suspirou, encorajado, quebrando o silêncio. - Quando você pensa em começar a escrever isso tudo?

O amigo riu, sem delongas.

- Quando?

Vão saber de tudo. Pois, para eles, aquele era o verdadeiro sentido da amizade.

***

"... Acontece que às vezes, não sei porque razão, eu sinto que você acredita em mim. Mesmo que seja engano meu (ou seu), isso já me deixa feliz."

Do escritor Paulo Mendes Campos em carta ao amigo Fernando Sabino, também escritor, em 20 de junho de 1984.

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