sexta-feira, 15 de julho de 2011

A lua não manda lembranças

Não tinha jeito. Talvez ele fosse, sim, um tanto nostálgico ou saudosista. Mas aquela sensação era diferente. Toda vez que se debruçava na janela de seu apartamento, com seu cigarro em mãos, para admirar as paisagens urbanas que podia ver dali - mais precisamente o centro - uma brisa batia em seu rosto, trazendo um perfume que nunca havia esquecido. Assim, as circunstâncias o levavam para quase trinta anos antes. Mesmo que os cabelos longos já não existissem mais e que agora uma grossa barba, quase totalmente branca, fizesse parte de seu espelho, podia sentir como se estivesse a conhecendo novamente. Era como se a brisa que a trouxe aquela noite fizesse o mesmo depois de tudo. E quando brisa passava, ele procurava no céu a mesma lua cheia de quando a conheceu. E muitas vezes ela, a lua, estava lá. Ele nunca imaginaria o quanto uma noite poderia durar tanto tempo.

Daquele apartamento, passeou pelas ruas de uma São Paulo em ebulição, fervendo pelos frenéticos anos sessenta, que revirava e agitava não só a cidade, mas o resto do mundo. Quando a conheceu, era noite de lua cheia no centro, bem parecida como esta. Naquele dia, havia brigado com a família e tinha decidido sair sem rumo. Pegou o primeiro ônibus que viu e foi parar, com a ajuda de Deus, na Praça da República, que já conhecia por ter estudado durante um tempo no Caetano de Campos. Era um jovem, pouco mais de dezoito anos, que parecia tão forte, mas de fato, nada sabia e tudo aprendia. Sentou para esperar o tempo passar. E naquela janela, percebeu que passou.

Lá de cima, olhou para a esquerda, um pouco ao longe e viu que hoje a Barão de Itapetininga não estava tão movimentada como naquele dia. Nem a praça estava tão escura. Trinta anos depois, de outro ângulo, viu um ônibus parar no ponto e conseguiu rever a menina descer ali e sutilmente olhar para ele. A menina passou tão próxima, que pôde sentir seu perfume logo se dispersar no ar, e que seria trazido pela segunda vez com a brisa. Seguiu com os olhos os passos dela e o viu levantar do banco, com a maior discrição possível. Poucos metros depois, viu que ela havia percebido sua presença e, sem nenhum medo ou constrangimento, sorriu novamente. Mais uma vez, com a maior simpatia do mundo, ela puxou conversa. Um alívio tomou conta dele junto de uma sensação diferente. “Amor...”, pode contar a si mesmo, depois desse tempo todo.

Pareciam se conhecer há anos, como amigos de infância. Engataram uma conversa, que ouviria tantas vezes, como se estivesse gravada em uma fita, andariam sem rumo e, quando percebessem, já estariam perto da Avenida Ipiranga. Seus olhos já não alcançavam àquela distância, mas nem por isso deixou de acompanhá-los. Pôs-se a olhar pra cima e perceber a lua mais uma vez respondendo ao seu gesto. Sabia que, naquele momento, a menina olharia no relógio e diria estar atrasada e que ele ficaria nervoso e apreensivo. Sabia que agora, ela sorriria, passaria a mão em seu rosto e diria suavemente: “A gente se vê por aí”. Ela viraria as costas nesse exato momento e ele correria atrás dela, pegando-a pelos braços, e perguntaria como poderia falar com ela, como poderia estar junto dela outras vezes. E ela olharia para o céu, como ele faria agora, trinta anos depois, e diria uma frase que jamais saíra da sua cabeça: “ Está vendo a lua? Ela vai me achar sempre que precisar. Fale o que quiser pra ela, que ela vai me passar. Conte sobre você, converse comigo através dela. Mande suas lembranças”. “Mas a lua não manda lembranças...” responderia ele de novo, mas agora para si mesmo. E ela mais uma vez teimaria com ele: “Manda sim. Pode ter certeza!”. Viu os olhos dela olharem para os dele, e sua boca se aproximar da dela, em um único beijo. Dali, ela viraria, tomaria um ônibus que entraria pela escuridão da noite paulistana. E dessa vez, antes mesmo das noites que passaria pensando nela, dos planos que faria para quando reencontrasse ou de tudo que aconteceria em sua vida, já saberia o final da história.

Apenas permaneceu um sorriso em sua mente. E lógico, como poderia esquecer, o perfume que é carregado pela mesma brisa e sempre volta nos dias em que debruça na janela do seu apartamento, apenas para ver a paisagem. E com ele, sempre uma dúvida: será que a lua fazia sua parte? Da menina, nunca mais soube nada. Muito menos que ela, trinta anos depois, desceria do ônibus, olharia para um banco, e mesmo que ninguém estivesse lá, veria um menino sentado, que olharia em seus olhos. E depois, andaria um pouco mais, uma brisa passaria por ela, e saberia que em alguns minutos veria o menino segui-la. Dessa vez sorriria para ninguém, mas teria certeza, ao olhar a mesma lua, que ela manda, sim, suas lembranças.

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