
Seu Valentim andava diariamente pelo bairro. Era seu costume. Por saudade, pegava o ônibus ainda pela manhãzinha, quando deixava seu apartamento no outro canto da cidade, para dar umas voltas por aqui. Não tinha como se distanciar, era conhecido por todos, sentia-se em casa. Por onde passava, acenava para algum conhecido, recebia sorrisos simpáticos, junto de buzinas de motoristas apressados enquanto ele atravessava a rua lentamente. Era para chegar do outro lado: mais perto daquela casa onde vivera desde a infância. A vida toda. Foi ao dobrar a esquina que Seu Valentim avistou uma placa pregada no muro. Escrita em grandes letras vermelhas estava a palavra “vende-se”. Lentamente foi se aproximando da casa. Aquele corpo franzino, esquálido, um tanto boquiaberto. Ajeitou os óculos para ver se era realmente aquilo que havia lido. Era. Estavam vendendo a casa. Mas para quê? Mas para quem? Ela ainda estava tão bonita, inteira. Era amarelinha, pequenina. Tinha tantas cores, tão viva que parecia.
O velho teve que se desfazer do imóvel há alguns anos, por motivos financeiros. As coisas não estavam mesmo boas naquela época. Mas já fazia muito tempo que o segundo proprietário também não vivia ali. E ele sabia disso, pois o silêncio naquele lugar há tempos o incomodava. Não se ouvia mais as crianças gritando e correndo de um lado para o outro. Ele já não fazia isso há alguns longos anos e seus filhos que ali nasceram, cresceram como deve ser e, como se diz por aí, casaram e mudaram. O cheiro da comida saindo do forno já não passava mais pela fresta da porta ou pela vidraça aberta da cozinha. A moça bonita, que algumas décadas antes parava no portão para esperá-lo, já não estava mais por aqui. Apenas o silêncio sentado no terraço, aonde outro dia mesmo, ele sentava para uma conversa gostosa com um amigo.
Rezou aquela noite para que aquele que comprasse a casa a mantivesse intacta. Logo a placa “Vende-se” era substituída por outra que avisava “comprado”, e seria mais tarde deixada de lado quando uma maior com “BREVE AQUI”, bem grande, tomasse seu lugar no muro. As máquinas logo começavam a se movimentar no terreno. Algumas janelas seriam tiradas, os tijolos da parede já ficavam a mostra e os sinais do fim eram cada vez mais presentes. Ajeitar os óculos, olhar bem, era a forma dele ter certeza do que via. No jardim, um homem gordo trazia instrumentos para escavação. “Meu rapaz...” chamou seu Valentim. O homem aproximou-se e ele perguntou: “Vão reformar a casa?”. O tal, mastigando algo e com cara de poucos amigos, contou-lhe: “Vão não, doutor. Compraram a casa. Vai virar prédio”. Tomou um choque que lhe abriu a boca. “Prédio?”, repetiu o velho. “Mas e quem morava aí?”. E o homem: “Morava ninguém não, doutor”. Entre uma cavada e outra, em uma suspirada forte, o bruto concluiu: “Ora, melhor virar prédio do que estacionamento, o senhor não acha, doutor?”.
Não achava. Em Seu Valentim, a dor aumentava a cada parte da casa que ia para o chão. A cada dia, quando passava por ali, via o número de homens aumentarem, as máquinas intensificarem o trabalho. Abria o portão, velho e enferrujado, que rangia a cada movimento e tinha o risco de ficar na mão de quem encostasse nele. Eles paravam o serviço para observar os movimentos do velho. Subia as escadas até a porta, ora, mas a porta estava trancada. Aos poucos, a escada de entrada ficava menor, cada dia com um degrau a menos. Sem ter para onde ir. Então dava uma volta no quintal, olhava pela janela. Agora sem quer encontrava outra paisagem. Não são mais as ruas que importam a vida lá fora. Debruçar-se na janela, do outro lado, e ver, através de um vidro quebrado, todo o passado que estava preso ali. Pela janela, sorria, e queria estar do lado de dentro.
Um dia a parede lateral - a do quarto não estava mais lá. Não havia mais a grande janela, o assoalho estava quebrado, o teto - ah, aquele teto que deu tanto trabalho e que tinha tantas goteiras - estava prestes a desabar. A banheira, de tantos banhos, estava cheia de entulhos. A sala, o quarto, a cozinha de todos os jantares, cada canto sumia repentinamente. Foi no dia que apenas restava um cômodo, nos fundos, que seu Valentim temeu. E se ele esquecer de como era a sua casa? Como faria? Ora, tinha que lembrar dela e faria disso seu exercício diário - sim o médico disse na última consulta que era bom ativar o cérebro nesta idade. Então lá ia ele. Sentava-se na frente da casa, ou do que restava dela e ficava lembrando. Lembrando. Lembrando. Chegava ali, estacionava o carro - certamente um daqueles modelos antigos-, abria a porta e via os filhos correndo e abraçá-lo. A mulher colocava a cabeça na porta da cozinha, dava um tchau avisando que estava ali preparando o jantar. Sentava-se na poltrona e assistia à televisão, enquanto os meninos brincavam na sala. Jantavam na cozinha, conversavam no quarto. Tanto, tantos amores, tantas brigas, tantas coisas, na cama, no quarto, na saudade. Tudo a baixo. A casa. E quando o vento batia, de um jeito que só às vezes ele batia, o portão rangia. Até o dia que não resistiu e caiu. Quando deu por si, apenas o chão lhe restava.
Tudo se abandonou. O lugar que trazia tanta vida já não existia mais. E sabe-se que se as paredes tivessem ouvidos, teriam escutado as melhores coisas da vida. Enquanto novos tijolos construiriam novas histórias, os que estavam quebrados no chão carregavam tantas coisas com eles e ficariam ali esquecidos. Para sempre. Disseram por aí que a última vez que seu Valentim apareceu por esses lados, confessou que naquele dia, na verdade penduraram a placa de vende-se nas suas costas, como se tivessem ofertando sua história e sua vida. Agora tudo ficaria guardado enquanto puder do lado de dentro. Do lado de dentro de algum coração que anda por aí sem casa para viver.
0 comentários:
Postar um comentário