sexta-feira, 1 de abril de 2011

Do lado de dentro

Seu Valentim andava diariamente pelo bairro. Era seu costume. Por saudade, pegava o ônibus ainda pela manhãzinha, quando deixava seu apartamento no outro canto da cidade, para dar umas voltas por aqui. Não tinha como se distanciar, era conhecido por todos, sentia-se em casa. Por onde passava, acenava para algum conhecido, recebia sorrisos simpáticos, junto de buzinas de motoristas apressados enquanto ele atravessava a rua lentamente. Era para chegar do outro lado: mais perto daquela casa onde vivera desde a infância. A vida toda. Foi ao dobrar a esquina que Seu Valentim avistou uma placa pregada no muro. Escrita em grandes letras vermelhas estava a palavra “vende-se”. Lentamente foi se aproximando da casa. Aquele corpo franzino, esquálido, um tanto boquiaberto. Ajeitou os óculos para ver se era realmente aquilo que havia lido. Era. Estavam vendendo a casa. Mas para quê? Mas para quem? Ela ainda estava tão bonita, inteira. Era amarelinha, pequenina. Tinha tantas cores, tão viva que parecia.

O velho teve que se desfazer do imóvel há alguns anos, por motivos financeiros. As coisas não estavam mesmo boas naquela época. Mas já fazia muito tempo que o segundo proprietário também não vivia ali. E ele sabia disso, pois o silêncio naquele lugar há tempos o incomodava. Não se ouvia mais as crianças gritando e correndo de um lado para o outro. Ele já não fazia isso há alguns longos anos e seus filhos que ali nasceram, cresceram como deve ser e, como se diz por aí, casaram e mudaram. O cheiro da comida saindo do forno já não passava mais pela fresta da porta ou pela vidraça aberta da cozinha. A moça bonita, que algumas décadas antes parava no portão para esperá-lo, já não estava mais por aqui. Apenas o silêncio sentado no terraço, aonde outro dia mesmo, ele sentava para uma conversa gostosa com um amigo.

Rezou aquela noite para que aquele que comprasse a casa a mantivesse intacta. Logo a placa “Vende-se” era substituída por outra que avisava “comprado”, e seria mais tarde deixada de lado quando uma maior com “BREVE AQUI”, bem grande, tomasse seu lugar no muro. As máquinas logo começavam a se movimentar no terreno. Algumas janelas seriam tiradas, os tijolos da parede já ficavam a mostra e os sinais do fim eram cada vez mais presentes. Ajeitar os óculos, olhar bem, era a forma dele ter certeza do que via. No jardim, um homem gordo trazia instrumentos para escavação. “Meu rapaz...” chamou seu Valentim. O homem aproximou-se e ele perguntou: “Vão reformar a casa?”. O tal, mastigando algo e com cara de poucos amigos, contou-lhe: “Vão não, doutor. Compraram a casa. Vai virar prédio”. Tomou um choque que lhe abriu a boca. “Prédio?”, repetiu o velho. “Mas e quem morava aí?”. E o homem: “Morava ninguém não, doutor”. Entre uma cavada e outra, em uma suspirada forte, o bruto concluiu: “Ora, melhor virar prédio do que estacionamento, o senhor não acha, doutor?”.

Não achava. Em Seu Valentim, a dor aumentava a cada parte da casa que ia para o chão. A cada dia, quando passava por ali, via o número de homens aumentarem, as máquinas intensificarem o trabalho. Abria o portão, velho e enferrujado, que rangia a cada movimento e tinha o risco de ficar na mão de quem encostasse nele. Eles paravam o serviço para observar os movimentos do velho. Subia as escadas até a porta, ora, mas a porta estava trancada. Aos poucos, a escada de entrada ficava menor, cada dia com um degrau a menos. Sem ter para onde ir. Então dava uma volta no quintal, olhava pela janela. Agora sem quer encontrava outra paisagem. Não são mais as ruas que importam a vida lá fora. Debruçar-se na janela, do outro lado, e ver, através de um vidro quebrado, todo o passado que estava preso ali. Pela janela, sorria, e queria estar do lado de dentro.

Um dia a parede lateral - a do quarto não estava mais lá. Não havia mais a grande janela, o assoalho estava quebrado, o teto - ah, aquele teto que deu tanto trabalho e que tinha tantas goteiras - estava prestes a desabar. A banheira, de tantos banhos, estava cheia de entulhos. A sala, o quarto, a cozinha de todos os jantares, cada canto sumia repentinamente. Foi no dia que apenas restava um cômodo, nos fundos, que seu Valentim temeu. E se ele esquecer de como era a sua casa? Como faria? Ora, tinha que lembrar dela e faria disso seu exercício diário - sim o médico disse na última consulta que era bom ativar o cérebro nesta idade. Então lá ia ele. Sentava-se na frente da casa, ou do que restava dela e ficava lembrando. Lembrando. Lembrando. Chegava ali, estacionava o carro - certamente um daqueles modelos antigos-, abria a porta e via os filhos correndo e abraçá-lo. A mulher colocava a cabeça na porta da cozinha, dava um tchau avisando que estava ali preparando o jantar. Sentava-se na poltrona e assistia à televisão, enquanto os meninos brincavam na sala. Jantavam na cozinha, conversavam no quarto. Tanto, tantos amores, tantas brigas, tantas coisas, na cama, no quarto, na saudade. Tudo a baixo. A casa. E quando o vento batia, de um jeito que só às vezes ele batia, o portão rangia. Até o dia que não resistiu e caiu. Quando deu por si, apenas o chão lhe restava.

Tudo se abandonou. O lugar que trazia tanta vida já não existia mais. E sabe-se que se as paredes tivessem ouvidos, teriam escutado as melhores coisas da vida. Enquanto novos tijolos construiriam novas histórias, os que estavam quebrados no chão carregavam tantas coisas com eles e ficariam ali esquecidos. Para sempre. Disseram por aí que a última vez que seu Valentim apareceu por esses lados, confessou que naquele dia, na verdade penduraram a placa de vende-se nas suas costas, como se tivessem ofertando sua história e sua vida. Agora tudo ficaria guardado enquanto puder do lado de dentro. Do lado de dentro de algum coração que anda por aí sem casa para viver.

Passe por aqui outra vez, quando puder, seu Valentim.

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